O Novo Cristianismo e a crítica à Nova Teologia de Bonhoeffer
O cristianismo tende a voltar à tradição profética do cristianismo primitivo, desempenhando um papel de guia da comunidade de fé como uma vanguarda da humanidade, abrindo espaço à humanização da “Tecnópole” e mantendo viva a esperança num reinado de paz e pão para todos. Todos os sinais apontam nesse sentido, embora me pareça que a interpretação desses sinais nem sempre seja feita da forma mais consentânea com a realidade, isto é, “voltar à tradição profética” do cristianismo não significa recuar no tempo e nas tradições – pelo contrário, significa adequar a tradição profética ao mundo da Tecnópole moderna.
A “secularização” como o fim da tutela religiosa e metafísica sobre o cidadão comum aconteceu quando este começa a voltar a sua atenção exclusivamente para mundo “naturalista”. Este fenómeno de secularização acontece na “Tecnópole”, que sucedeu à “tribo” e à “cidade”. Se na tribo, Deus aparecia como um dos “deuses” e na cidade como parte da estrutura cósmica, na Tecnópole Deus perdeu o significado em ambos os sentidos; a política substitui a metafísica como linguagem da teologia na tecnópole – como podemos constatar, por exemplo, através do tratamento religioso que a política dá ao “aquecimento global”.
Deus passou a ser, para o tecnopolita, um “sócio” que está encarregado de conferir um sentido e ordem à história humana, isto é, o tecnopolita não prescinde de Deus, mas Este adquiriu tantos significados – em função do pós-modernismo – que passou a impedir a comunicação entre os homens. Com o pós-modernismo, instala-se na Tecnópole uma torre de Babel religiosa através do conceito do “Deus-sócio”, que tem uma função de regulação moral e de garantia de atribuição de um sentido histórico ao tecnopolita.
Em função da cultura da Tecnópole, o cristianismo vê-se hoje obrigado a adoptar a sua tradição profética, como Jesus fez quando nos falou do “Deus que será”, e não do “Deus que é” – O da tradição judaica. A fé em Deus será reconhecida pelas gerações presentes como uma esperança no futuro num reinado da paz no mundo.
O sincretismo religioso da Nova Teologia de Bonhoeffer
Quando se ouve alguém dizer que “sou católico não-praticante”, diz-se que a pessoa é incoerente, porque “ou se é católico e se praticam os ritos da religião, ou não se pratica a religião e não se é católico”. Esta formatação ideológica é, na sua essência, anti-religiosa, porque o “católico não-praticante” é uma realidade da Nova Teologia que se inspira em conceitos das ideias de Bonhoeffer.
Dietrich Bonhoeffer foi um pastor luterano que foi assassinado pelos nazis meses antes do fim da guerra.
Segundo Bonhoeffer, a religião é considerada como expressão mítica ou contingente da fé, condicionada pelo ambiente histórico do passado e tornada inaceitável na época contemporânea dominada pelo racionalismo, pela Ciência e pela Técnica. Esta recusa da religião é também a recusa de todo o aspecto cultural e ritual da mesma, isto é, esta a recusa da religião dá a primazia à “fé autêntica” em detrimento do tipo de culto.
É nesta filosofia que se insere o “católico não-praticante” – não só na componente da herança cultural da tradição, mas na procura da fé autêntica desprovida dos mecanismos rituais do culto. O “católico não-praticante” pode ser a pessoa que se desligou da religião mas mantém os laços culturais do “Deus-sócio” do tecnopolita, ou a pessoa que recusa dos rituais religiosos – nomeadamente a idolatria católica – em nome de uma “fé autêntica”. Ter fé não significa executar certos actos ou ritos nem cultivar uma certa forma de ascetismo e de misticismo, mas apenas “ser homem”, isto é, participar na vida do mundo, no sofrimento e nas dores dos outros e trabalhar para um mundo melhor.
A renúncia aos rituais culturais das religiões tende a criar um sincretismo religioso, eliminando as distâncias culturais não só entre as várias confissões cristãs, como em relação a religiões não cristãs – e sobretudo tendendo a unir o cristianismo e as religiões orientais – principalmente o budismo e o cristianismo. Nesta nova realidade, a função da Igreja Católica torna-se extremamente complicada.
A Nova Teologia e a recusa do sobrenatural
Contudo, mesmo a chamada Nova Teologia de Bonhoeffer está hoje ultrapassada em muitos aspectos. A recusa do sobrenatural por parte da Nova Teologia de Bonhoeffer é a aceitação do racionalismo moderno tal qual afirmada pelo iluminismo, isto é, a recusa do mistério e do milagre. Contudo, com o advento da Física e da Filosofia Quânticas, o “mistério” passou a ser comum à ciência e à religião. Por exemplo, o “milagre” – que a Nova Teologia do pós-guerra refuta – passou a ser algo explicável pela “fé racional” e pela Quântica:
Processo Vital Quântico, Químico ou Físico + Tempo = Fenómeno Natural
Processo Vital Quântico, Químico ou Físico – Tempo = Milagre
O sobrenatural é a interferência do Tempo Infinito no nosso Tempo Finito, isto é, o milagre não é uma infracção às leis naturais mas antes uma questão de forma e método na execução das leis naturais, através da eliminação do nosso Tempo do fenómeno natural (ver post sobre Espinosa). É neste sentido que o Novo Cristianismo deve encarar o milagre e o sobrenatural. O cristianismo deverá passar a ser uma “religião aliada à filosofia e à ciência”.
O panteísmo da Nova Teologia de Bonhoeffer
Bonhoeffer adopta o panteísmo clássico de Espinosa, que é no fundo a validação por parte da religião, da visão do mundo de Descartes. Contudo, é hoje a própria ciência que coloca em causa qualquer tipo de panteísmo religioso racionalista, quando a física quântica coloca em causa o próprio determinismo científico quando entra no estudo das partículas quânticas e adopta a ideia de que no limite do nosso espaço-tempo, as leis da física, tal qual existem, não se aplicam de igual modo. Por exemplo, é impossível determinar simultaneamente o espaço e o tempo de uma partícula quântica: ou se determina a sua posição ou a sua velocidade. A filosofia quântica e a Física Teórica vieram provar que nem sempre o que é real é racional, pelo menos à luz do Saber disponível. Quando a quântica observa os fenómenos atómicos, opera na fronteira entre o Finito e o Infinito. À escala atómica, demonstrou-se que a observação de um fenómeno quântico o modifica de uma forma imprevisível. Toda a observação que pretenda determinar a posição de uma partícula atómica, ou modifica a velocidade dessa partícula, ou determinando-se a velocidade, a sua posição modifica-se, porque não é possível determinar simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula quântica. Os cientistas quânticos foram obrigados a incluir na análise dos fenómenos atómicos as próprias modificações que a observação provoca neles, sem eliminar, contudo, a elevada imprevisibilidade dos fenómenos quânticos.
Se a visão panteísta inclui a natureza na composição divina, isto é, a natureza faz parte integrante de Deus, a física quântica demonstra que o panteísmo não faz sentido, porque no limite do nosso microcosmo, as leis da física não se aplicam de uma forma idêntica ao cosmos do nosso espaço-tempo – o que aponta para a existência de diferentes dimensões temporais, corroborando o princípio fichteano do “tempo infinito”.
O caminho do cristianismo aponta para a) o retorno à tradição profética, b) à incorporação da dúvida científica na sua teologia (a fé racional), c) a adaptação da estrutura da Igreja à realidade social da tecnópole, sem que se perca a essência da filosofia cristã, e d) a procura do sincretismo religioso através do ecumenismo. Nestes quatro pontos, estou de acordo com Bonhoeffer.
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